As praças na conformação dos Espaços Urbanos do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba: Do início do Século XIX a Meados do Século XX - Em andamento

por Portal PPGAU Faued
Publicado: 07/12/2020 - 16:15
Última modificação: 24/03/2021 - 17:45

[PROJETO EM ANDAMENTO]

A Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e Design da Universidade Federal de Uberlândia tem buscado, através de seus núcleos de pesquisa, contribuir para o conhecimento dos processos de configuração, transformação e conservação dos espaços construídos. Como prioridade, busca estimular as pesquisas voltadas para a região de influência imediata da UFU conformadas pelas regiões do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba. Através de pesquisas individuais realizadas em sua maior parte vinculadas a projetos de qualificação de seu corpo docente - ou de trabalhos de equipe, seu interesse é contribuir para a ampliação do conhecimento dos processos de ocupação do território, do estabelecimento dos núcleos urbanos, sua expansão, transformações, bem como a produção arquitetônica e seus problemas atuais.
Em 2007, o Núcleo de História da Arquitetura e Urbanismo deu início a um amplo projeto de investigação e documentação da arquitetura moderna, que inicialmente contou com o apoio da FAPEMIG, fundamental para a montagem da infra-estrutura básica necessária para sua realização. Este projeto envolveu vários professores e alunos com bolsas de iniciação científica e teve continuidade nos anos seguintes com o apoio da própria UFU.
O projeto que agora apresentamos tem por objetivo ampliar a temporalidade de investigação e documentação dos modelos urbanos e da produção arquitetônica realizados na região, dando maior destaque ao século XIX período de conformação dos principais núcleos urbanos do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba e as transformações que estes núcleos sofrem até a introdução da arquitetura moderna em meados do século XX. Por outro lado, dá continuidade a pesquisas e trabalhos já realizados pelos professores da FAUeD, que abordam diferentes aspectos da história urbana e da produção arquitetônica e paisagística da região.
Segundo TEIXEIRA (2001), o Brasil constitui o território onde se verificaram alguns dos mais interessantes desenvolvimentos do urbanismo português entre os séculos XV e XVIII e aponta, como uma das características mais importantes da tradição urbanística portuguesa, a multiplicidade de praças dentro de um mesmo núcleo urbano. No século XVIII, a praça regular, de forma quadrada ou retangular, centrada na malha urbana, tornou-se o modelo dominante, correspondendo ao culminar do processo de crescente racionalidade e regularidade dos traçados urbanos portugueses, em que a praça, constituída de acordo com uma estrutura geométrica regular, adquire cada vez mais um papel estruturante e se torna um elemento fundamental de qualquer novo traçado urbano. Porém, no século XIX, essa praça encerrada, formalmente estruturada no seu traçado em planta e no ordenamento das fachadas que a rodeiam, local da concentração de funções nobres da cidade e elemento estruturante da malha urbana, torna-se um elemento raro nas composições urbanas portuguesas. No entanto, o padrão oitocentista parece permanecer como referência para a constituição dos núcleos que surgem no interior do Brasil no qual a capela e o adro, de formato regular, se constituem nos elementos ordenadores do espaço urbano em formação, como é o caso da região proposta para estudo.
Nenhum dos núcleos urbanos constituídos na região do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba contou, em sua origem, com um planejamento prévio, um traçado que direcionasse ou organizasse a implantação de seu espaço e seu crescimento. Entretanto, embora não se possa falar de um planejamento urbano propriamente dito, a observação das diversas estruturas urbanas de seus núcleos iniciais estabelecidos a partir de finais de século XVIII e início do século XIX, nos revela algumas constantes no agenciamento desses espaços que nos permite supor a consciência, por parte dos povoadores, de alguns padrões de organização espacial que se mantiveram ao longo desse período e que lançam as bases de sua conformação espacial. Invariavelmente, a formação dos núcleos urbanos nessas regiões se deu a partir da constituição de um patrimônio religioso e teve como elemento ordenador de seu espaço físico a capela e seu adro, criando um espaço centralizador regular, em torno do qual se estabeleceram as primeiras residências e os principais edifícios e de onde partiam as primeiras vias, reproduzindo o modelo acima apontado por TEIXEIRA (2001).
Os núcleos estabelecidos até meados do século XIX mantiveram a tradição colonial do uso dos adros para sepultamento; os núcleos cuja origem se estabelece a partir de então, mantém o adro em frente às igrejas principais, porém sem o uso original. Ao longo dos anos, a tendência foi a transferência dos antigos cemitérios para outras áreas, deixando livre esse espaço que inicialmente permanece como uma área aberta para usos festivos.
A partir das primeiras décadas do século XX, quando os primitivos núcleos passaram a receber melhorias urbanas tais como: pavimentação das ruas, fornecimento de energia elétrica e água canalizada os espaços livres também passam a ser alvo das atenções públicas, estabelecendo os primeiros espaços tratados como praças e/ou jardins, com arborização, passeios, canteiros e equipamentos para uso da população. No processo de expansão urbana que então sofrem, novas áreas públicas são constituídas, criando-se praças que adotam novos modelos urbano-paisagísticos. Ao longo dos anos, esses espaços passaram por diferentes intervenções, acompanhando os modismos e as aspirações das elites políticas locais. Em algumas delas, como a Praça Rui Barbosa em Uberaba, é possível identificar a realização de cinco projetos distintos que, mantendo basicamente o mesmo perímetro, oferece diferentes modos de organização de seus elementos compositivos. Essas alterações atingem também seu entorno, que sofre alterações de padrões de construção e usos.
O trabalho propõe-se a investigar, documentar e analisar as praças constituídas durante do século XIX nas cidades de Uberlândia, Uberaba, Araxá e Araguari.
Dentre o universo constituído pelas cidades da região abordada, foram eleitas as cidades de Uberlândia, Uberaba, Araxá e Araguari tendo em vista a importância que tiveram para a consolidação da ocupação e exploração da região, pela existência de arquivos organizados que permitirão a coleta de dados e pela proximidade à Uberlândia, facilitando a realização dos trabalhos. Por outro lado, estes exemplos pretendem consolidar o procedimento de coleta, arquivamento e análise dos dados que deverá ser posteriormente estendido às outras localidades do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, em projetos futuros.
Destacamos como interesse primordial do trabalho, a importância do conhecimento dos processos históricos que engendraram tanto a configuração como as transformações dos espaços públicos ao longo do tempo neste caso específico, as praças para a compreensão e análise dos problemas e das qualidades presentes na cidade contemporânea, com a perspectiva de contribuir tanto para sua preservação, como para eventuais intervenções. Para tanto, o desenvolvimento de ações de documentação e registro são medidas indispensáveis no sentido de garantir e facilitar o acesso às informações que podem tanto gerar novos estudos como orientar medidas de reconhecimento, valorização, proteção e conservação da arquitetura e de conjuntos urbanos e paisagísticos construídos.
Além da formação profissional dos alunos, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e Design, tem atuado na região do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba na prestação de serviços de identificação e preservação do patrimônio arquitetônico e urbanístico. O material a ser levantado neste trabalho servirá de apoio para fortalecer estas ações e também será de uso didático para as disciplinas de graduação e futura pós-graduação a ser implantada junto a FAUeD nesta área.